sábado, 5 de fevereiro de 2011

Sopro do coração

 Embora tivesse um nome estranho Equin’ Ócio, era um país aprazível. Verdejante, uma costa banhada pelo mar, o céu variava entre o plúmbeo e o azul, e a temperatura era geralmente amena.
Uma verdadeira terra de ócio. Os equídeos de falar gutural comprovavam-no, passando da situação de sentados à posição de sentados amiúdas vezes.
O simpático equídeo, de nome Centauro Camarinha, da família dos Camarinha, andara abalado. Desprevenidamente passara sem poder ripostar de cavalo a burro. Isolou-se, acabrunhado com as suas orelhas de burro. Mas depressa recuperou. E nunca tendo ouvido falar de Maquiavel, a intuição dizia-lhe “Mais vale parecer, que ser”, e ele tinha tudo para parecer. O vento corria-lhe de feição, e ele andava ao sabor do vento. Está provado estatisticamente que para cada cavalo há uma média de 7,5% éguas ou mais.
E cavalo ou burro tanto faz, num período de rarefacção alimentar, é uma montada a não descurar, daí que cavalo ou burro e apesar da lamentável frase do equino mor, que demonstrava o seu desprezo pela sexo oposto: “ já deu muito peido em collhão de soldado”, quem era ele para atirar o que quer que fosse, aceitava o que o vento lhe trazia.
Reinava o paganismo. Deus, burros, cavalos, vacas, touros, cães e cadelas, galos, galinhas e tudo o inimaginável, até pão, convivia frenética e alegremente.
Este era o ambiente em terra.
No ar, o urubu voava sorrindo à esquerda e á direita, atrás e à frente. Uma canseira.
Malditas galinheiras, fazem-me sempre esta franja de urubu, e esta penugem rala, quando me dá o vento. Era o que o torturava. Talvez um chapéu de apache, tranças não, pareceria que pendurei as espinhas de carapau, ficaria ridículo. Mas de apache? OOOOUUUU, onde há fumo, há fogo, ainda se fosse “Sinais de fogo”, do MST, “ sim eu sei que tudo são recordações, …” , e  que o título é de Jorge de  Sena.
Planava e entoava uma canção. O bico em biquinho ridículo, os olhos semicerrados.

(continua)

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